domingo, 22 de janeiro de 2023

Canção do Aquário Num Copo D'água


É lógico que essa foi a canção mais atrasada da roda... Mas, vamos lá, que também é lógico que o papo aqui é longo.

Indo direto na premissa, a sociedade, a cultura, a religião, a educação... tudo isso é uma conspiração contra as crianças. Monstros e moinhos... Todos agem de forma a garantir que você, desde o princípio, seja desencorajado a ser o que deveria, por natureza. Nada mais fácil. A criança é indefesa, está aberta, é dependente. Então, o que quer que queiram fazer dela, conseguem. Todos os esforços visam a torná-la útil a seus interesses. E se deixarem-na crescer livremente, como poderão ter certeza de que isso acontecerá? Assim, começa a sua jornada, por um caminho que não é o seu.

Você nem tem a oportunidade de sentir falta da sua alma roubada. Antes que perceba, a retiram de você e te dão uma falsa identidade como substituta. Mas essa substituta só serve dentro do grupo que lhe deu a falsa identidade. Basta ficar sozinho por um tempo, que a máscara vai derretendo e o real, reprimido como uma fera acorrentada, começa a se desprender. Daí vem o seu grande medo de ficar  sozinho. Então começa a procura por grupos: família, amigos, casamento, time, escola, partido, religião, ideologia, qualquer ocupação que a Miss Doloway possa arranjar... A assistência precisa ser recebida 24 horas, porque aquilo que é falso não se sustenta sem apoio.

Quando estamos sozinhos começamos a nos sentir um pouco loucos, um pouco estranhos, deslocados. Tantos anos acreditando conhecer-se muito bem, e então, num belo momento de solidão, a pessoa que você pensava ser ganha um ar de falsidade. A consciência da ilusão fica forte no silêncio, e um medo crescente, uma dúvida, uma estranha crise se instala. E nunca se sabe explicar muito bem por quê... Talvez, depois de anos de depressão o verdadeiro você se expresse, depois de enfrentada o que dentro do ocultismo chamamos de "a  noite escura da alma", o limbo, onde não se sabe quem é, onde você não é nem o verdadeiro, nem mais o falso.

Pela meditação, esse ato de se estar conscientemente sozinho, em silêncio, esperando até que o real se firme, é possível encurtar um pouco o caminho do falso para o real. Pois, a meditação não é uma ação que a sua personagem toma, é um ato de espera. Meditar é esperar tranquilamente até que a realidade se manifeste tal como é. Não é ação, é relaxamento, e faz muito bem. Ajuda a voltar ao centro, a atravessar a noite escura, pois qualquer coisa que se faça, virá da falsa personalidade. É um velho hábito. Hábitos custam a morrer. Tantos anos vestindo uma falsa personalidade, imposta por pessoas que você ama, confia e respeita... que até têm as melhores intenções, mas falta a elas discernimento... pais, amigos, professores, sacerdotes, políticos... Até mesmo boas intenções nas mãos de pessoas inconscientes viram veneno. Por isso, o medo da solidão é tão profundo. Porque, de repente, o falso começa a desaparecer. E o novo leva um tempinho para se firmar, você o perdeu de vista há tanto tempo. 

Surge o medo de estar se perdendo, perdendo o senso, a sanidade, a mente, tudo... Pois a falsa personalidade dada a você é feita de todas essas coisas, é como se fosse ficar louco. Imediatamente você começa a fazer algo só para se ocupar. Se não há ninguém por perto, pelo menos tem que haver alguma ação, assim o falso fica ocupado e não começa a desaparecer. Por isso, as pessoas acham mais difícil no domingo. Durante cinco dias elas trabalham, esperando que no final de semana possam relaxar. No sábado rola toda aquela agitação, mas então chega o domingo e é o pior momento da semana. É o dia em que acontecem mais acidentes, mais gente se suicida, há mais assassinatos, mais roubos, mais estupros. Estranho... em cinco dias as pessoas ficam ocupadas e não há tantos problemas. Mas, no fim de semana, tiveram uma chance, ou para fazer outra coisa ou para relaxar. E de repente, relaxar é aterrorizante, pois a personalidade falsa desaparece. 

Então todo mundo fica ocupado, fazendo qualquer coisa idiota. As pessoas correm para a praia, pegam um congestionamento de quilômetros, e se você perguntar a elas onde estão indo, vão dizer que estão querendo "fugir do tumulto da cidade". Mas, o tumulto todo está indo com elas! Querem ir para um lugar silencioso, distante de tudo e todos... Todas ao mesmo tempo! Caramba, se tivessem ficado em casa, teriam mais silêncio e solidão, pois todos os idiotas teriam saído em busca de um lugar distante. E como correm feito loucos! Porque dois dias terminam rápido, eles têm que chegar! Só não pergunte onde. 

Na praia as pessoas ficam amontoadas, nem um supermercado fica tão lotado. E, o que é estranhíssimo: as pessoas se sentem muito à vontade, sob aquele sol somaliano. Dez mil pessoas numa pequena praia tomando sol, relaxando. A mesma pessoa na mesma praia, se estivesse sozinha, não conseguiria relaxar. Mas ela sabe que milhares de pessoas estarão relaxando junto dela. As mesmas pessoas estavam no escritório, as mesmas pessoas estavam nas ruas, as mesmas pessoas estavam no supermercado, agora as mesmas pessoas estão na praia. A multidão é essencial para que o falso exista. Pois, no momento em que ele está sozinho, começa a enfraquecer. É por isso que é bom entender um pouquinho de meditação. Para que o falso desapareça. Não faz sentido se agarrar a isso. Não é seu, não é você. Você é aquele que fica quando o falso se vai. Ninguém mais pode responder à pergunta "Quem sou eu?". Nem você pode. Mas, desse modo você ao menos saberá a resposta. 

Todas as técnicas de meditação servem para ajudar a destruir o falso. Elas não dão a você o real, o real não é algo que se dê. Aquilo que pode ser dado não pode ser real. O real você já tem, só o falso tem de ser eliminado. Assim como um Mestre de verdade, a meditação tira de você coisas que na verdade você não tem, e isso dá espaço para o que é seu se manifeste. Meditação é só a coragem de ficar em silêncio e sozinho. Devagar, muito devagar, você começa a sentir uma nova qualidade em si mesmo, uma nova vivacidade, uma nova beleza, uma nova inteligência, que não é emprestada de ninguém. Ela vai crescendo dentro de você, tem raízes na sua existência. E, se você não for covarde, ela fluirá e florescerá. 

Só os bravos, os corajosos, as pessoas de fibra podem ser espiritualizadas. A multidão sempre procura consolidar cada vez mais a falsa identidade. Você nasceu, veio para este mundo com vida, com consciência, com uma grande sensibilidade. Basta olhar uma criança pequena. Tudo isso tem sido encoberto por uma falsa personalidade. Não é preciso medo. Você só pode perder aquilo que tem de ser perdido. E é bom que perca logo pois, quanto mais tempo permanece, mais forte isso fica. E não se sabe o dia de amanhã.

Isso é riqueza e sucesso: viver de acordo com esse ser autêntico e morrer de acordo com ele. Pois, a vida é eterna e a morte é uma ficção. Que você não morra antes de resgatar sua autenticidade. 


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