sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

"PORRA!"

Tem situações que já são difíceis e absurdas sozinhas.  Lá, condenadas ao congelamento do passado. Mas dizer que não tem como piorar é subestimar demais o universo. Sim, sempre tem como ficar pior. Tristeza duplica o peso de qualquer coisa. Raiva eleva à décima potência. Mas, nada transforma tudo numa tempestade de merda tão bem quanto o orgulho e consequentemente a falta de sinceridade. Isso só atrapalha a visão, ata as mãos. E aí, fica bem difícil quando, diante da pior atitude possível, o reconhecimento sincero do erro e a ação conciliadora, a boa vontade que denota humildade, ficam de lado em prol da sua auto imagem. Que inclusive é falsa. Para não dizer patética, digna de pena. Depois de mostrar o pior de si, a arrogância permanece e diz que agora sim está tudo bem, se sente aliviada e vai se afastar porque não consegue entender... Quando na verdade, entende muito bem, só que ser vingativo, punitivo, sair aparentemente "por cima" e agir com escapismo, foi tudo o que se aprendeu em algumas décadas de relacionamentos problemáticos, pouca reflexão, muito escapismo e atitudes duvidosas. Tem coisas que só sendo muito cego para não notar. E existem tantas formas de cegueira... Mas, por mais clichê que possa parecer, é uma verdade: o pior cego é o que escolhe não ver. 

Ainda bem que levo muito pouco as palavras dos outros a sério. Foco no que eu quero sinceramente fazer, não em sair com uma imagem orgulhosa intacta e um ar de superior. Pra mim grandeza de espírito e imagem admirável tem mais a ver com silêncio, respeito e atitude do que com descontrole, birra e passividade. Pois o mesmo que disse ontem "não quero te entender só amar e respeitar" pode ser o mesmo que diz hoje que "não está entendendo nada, não está funcionando desse jeito e por isso vai se afastar"... E se eu acreditar nisso, se eu sequer parar para ouvir, se sentir sinceridade nessas palavras, e em tantas outras, simplesmente me levanto e volto para casa com toda a leveza que só aqueles que fizeram de tudo, que deram 100% de si, que jogam junto, sentem. Se preferir vencer uma discussão, "não baixar a crista", a resolver um problema de forma sincera e satisfatória para todos, já posso considerar a possibilidade de problemas sérios de habilidades sociais ou de idiotia. O que é sempre muito mais preocupante do que, apesar de uma patologia mental, as limitações biológicas de alguém com um mínimo de boa vontade.

Em outras palavras, não deixar o seu comportamento imaturo, seu ego infantil, abaixo do que realmente sente e quer fazer é no mínimo covardia, no máximo ignorância... Não tomar um movimento reparador, não buscar a iniciativa de conciliação, de solução, especialmente quando é para manter algo que para você importa muito... Não há confiança que se mantenha intacta depois disso. Fugir por vergonha de um erro cometido é uma das maiores besteiras que se pode fazer na vida e eu já vi isso acontecendo tantas vezes... Precisei lidar com isso de tantas formas... Mesmo assim ainda dói bastante ser sempre aquela que se mantém iluminada quando tudo mais escurece... 

E é desnecessariamente violento e sombrio receber um balde de água fria enquanto se está apenas tentando ficar em paz, quieta. E não tem nada pelo qual eu tenha menos respeito do que pensamentos e atitudes passivo-agressivas. Exigir que o outro deixe de fazer o que quer, ou exigir que faça algo que você quer, só porque você quer e ainda num tom autoritário, seguido de repreensão? Tem atitude mais passiva, anti sedutora e egoísta? Você cria as expectativas, exige que o outro as cumpra, o repreende porque ele se recusa e ainda se descontrola irremediavelmente se ele insistir em reclamar? E ainda o ameaça, se faz de vítima, envolve outras pessoas e diz com o peito estufado e a maior tranquilidade que, foi bom o ocorrido, se sente aliviado, liberado e satisfeito com isso? Não percebe o quanto tudo isso é absurdo e covarde? "Pára de fazer isso. Por que? Porque eu quero." Hã? Como assim? Não é melhor ir fazer o que você quer de uma vez e ver se o outro tem interesse em te acompanhar? Não é mais maduro, sensato e respeitoso? Assinei algum contrato dizendo que sou obrigada a fazer ou deixar de fazer o que você quer, simplesmente porque você quer? Não é mais inteligente e elegante seduzir em vez de exigir feito criança mimada?

Piora quando além de tudo isso, ainda permanece aquela velha conhecida posição de vítima, as justificativas, as tentativas de causar um sentimento de culpa... A falta de bom senso em, apesar de estar completamente errado, esperar que seu lado seja considerado... Ainda assim agir com arrogância, como se estivesse cheio de razão, até o fim! É tão surreal que chega a ser inacreditável! Delegar ao outro, sim, àquele que apenas sofreu todas as consequências das suas piores atitudes, o papel de conciliador? Esperar boa vontade e compreensão daquele a quem você oprimiu? Por medo de ouvir um não, de ser recusado com todas as letras? Contar que o outro, e apenas ele, tenha a grandeza de espírito de compreender, relevar, resgatar, apaziguar e persistir, com todos os seus problemas e fraquezas e histórico e restrições, pois caso contrário sua decisão será fugir como um ladrão envergonhado, de mãos vazias, sem conseguir carregar seus espólios? Quão opressor e injusto isso é? O que é preciso para seguir adiante ainda assim? O que é preciso para não se sentir violentada diante deste quadro? 

Bom, faço de tudo. É assim quando me importo. Faço o que for necessário. Não aceito menos do que a paz e a harmonia. Vasculho minhas melhores lembranças. Elevo meu espírito com danças e canções. Lanço feitiços. Realizo rituais. Profiro palavras mágicas. Consagro amuletos. Pinto, escrevo, crio histórias, corro... Me ponho em movimento. Lembro do meu caminho. Esqueço, relevo, reflito e perdoo. Reviro meu coração. Olho bem nos meus olhos, me encaro de frente. E sei que sempre acabo encontrando, em algum lugar, de algum modo, a esperança perdida nessa bagunça toda. 

2 comentários:

Gustavo disse...

Carol, Carol... Tudo de novo, não, hein...

Van Helsing disse...

São muitas as ordálias e a do ego é a mais difícil. Você tem se saído muito bem. Melhor, mais rápida e mais precisa a cada girar da roda. Fico feliz de estar acompanhando todo esse processo.

Força!