domingo, 1 de dezembro de 2013

"Kami Chan"

Durante o dia é mais fácil enxergar. Isso é o que sempre diz o sensei, especialmente para mim. E ele tem um jeito próprio para lidar com cada aprendiz. Categoriza-nos em elementos de centro e elementos de periferia. O meu centro, Ar e a periferia, Fogo, aparecem no meu modo de lutar sob condições de perigo real, ou desatentamente respectivamente. De fato, é realmente visível a diferença e, claro o contexto de confronto corporal é só um em meio a tantos outros que a vida nos coloca. Então, no meu caso, quando é noite, não estou pensando direito, tá tudo muito nebuloso, ajo com o lado mais sombrio da qualidade ígnea. Sou estúpida, brusca, exagerada, obcecada, precipitada, quente... Reconheço. E nos momentos que precedem o amanhecer, durante a hora mais escura, posso ser a própria encarnação do Balrog de Moria. Mas, é só até o Sol nascer. E ele sempre nasce. Às vezes parece que demora um ano, mas lá está ele iluminando tudo outra vez. Não me levo tão a sério por tempo demais, afinal. Faço de um erro uma oportunidade, uma piada nova para contar.

Infelizmente, com o tempo, a gente aprende também que o Sol não ficará alto no céu por muito tempo. Logo logo voltará a ceder espaço para a noite. A maestria está em aprender tudo o que puder durante o dia para que, quando a noite chegar outra vez, seja possível saber onde exatamente está guardada cada coisa, onde estão os terrenos inclinados, os caminhos escorregadios, os riachos... E usar a periferia do nosso ser, o ego, para criar uma sombra temível, mas apenas isso. Pois, o centro precisa estar presente todo o tempo. Não podemos nos perder dele. A tendência é que isso fique cada vez mais fácil com os olhos bem abertos diante das experiências a que nos submetemos. Quanto mais estranhas e difíceis, melhor. Mas, as decisões devem ser tomadas apenas durante o dia. Nunca de noite. 

Para mim, sermões, esporrinhos e lições de moral, não funcionam desde meu primeiro ano de vida. Não reconheço autoridade em quem não sabe conquistá-la. Nasci antes da hora, numa família que nunca me desejou de verdade e foi obrigada a suportar a minha recusa à conformação, às imposições e tentativas de moldagem por 22 anos. Foi e tem sido difícil ser eu mesma, viver por conta própria, mas meu  irmão morreu num aborto que deveria matar a nós dois e com isso enganou a todos a respeito da fatídica gravidez, salvando assim a minha vida. Então, só me resta ser grata, porque nenhuma merda que tenha acontecido ou venha a acontecer será maior do que terem me deixado descobrir isso. Algumas até foram páreo duro, mas isso continua sendo imbatível. E 22 é o número do Louco, presente na minha vida de diversas outras maneiras... Aquele que está no início ou no fim de um ciclo, um inocente ou um sábio, ou os dois, já que não tem essa de início e fim... 

Ah, mas a vida é de uma simplicidade encantadora mesmo... Durante o dia é fácil notar. Entretanto, as pessoas... essas nunca são simples, até escaparem do ciclo, evento raro. Têm segredos, bons, fortalecedores e maus, sabotadores; têm mistérios, infinitos, e são capazes de coisas maravilhosas tanto quanto o são das mais estúpidas atitudes. São milagres que nada fizeram para receber a vida, mas vivem. Nunca fizeram qualquer esforço para existir, mas existem, independente de sua vontade, e por isso deveriam todas apenas ser muito gratas, pois qualquer coisa que aconteça é, de certa forma, lucro, empurra pra cima e para frente. 

Portanto, embora eu seja assim tão mental, não é possível, para mim, aprender com direcionamentos exclusivamente verbais, regras, menos ainda acompanhadas de tapas, pontapés e esperneios. Preciso viver, ir até lá e ver o que acontece com meus próprios olhos. E, sempre haverá quem se lixe pra isso, se colocando numa posição de superioridade, se acreditando muito centrada, amadurecida, sem falhas e patetices, e às vezes me dou muito mal quando imagino que receberei o carinho, a compreensão e a paciência com a qual costumo receber aqueles que a vida põe no meu caminho, apesar de todos os seus demônios. Minha guarda nunca foi das melhores, mas a resistência surpreende até a mim mesma e o contra ataque é uma habilidade especialmente notável. Levanto até depois de uma queda de cinco andares ou doses cavalares de drogas, anestesias... e depois... sempre tem um level up precedido de um fatality. Às vezes até um Flawless Victory.

Mas, nem foi tanto o caso agora. Nada de Perfect. No entanto, "envelheci dez anos ou mais, nesse último mês." A última valsa foi daquelas que Chopin gostava de compor, demoradas, cheia de notas, todos os dedos ocupados em todas as oitavas do piano. Fora que a partitura na minha frente parecia ter sido posta pela Rainha de Copas, estava de cabeça para baixo. Assim, perspectivas apontaram como problemáticas características minhas que até já foram bastante elogiadas e precisei aprender outras maneiras de fazer as mesmas coisas. Aprender junto é muito mais simples, mas não foi o caso. Estava sozinha numa peça para quatro mãos. Até aqui! Pois, essas últimas semanas me trouxeram a oportunidade de ver do alto o que acabou me vendando e prendendo a um ritornello sem fim. Assim como no mês passado, vi se manifestar na minha frente minhas próprias atitudes, pensamentos e sentimentos fora de ritmo... Vi a mão pesar em pianíssimos, e Allegros Agitatos roubando a vez de Andantes Cantabiles... Vi aquelas qualidades sombrias do Fogo voltando em minha direção e entendi perfeitamente o que não dá certo em determinadas composições. 

Agora está tudo suficientemente compreensível, com o Sol em Sagitário prestes a trazer a aurora novamente. E sinto especial alegria em compartilhar isso porque fui capaz de tratar o caso com a presença de espírito que eu gostaria que tivessem tratado as minhas ações imaturas e a minha confusão. Não fugi, nem me escondi, não me constrangi, não deixei de ser natural, não fiz pouco caso, não culpei, não rotulei, nem larguei à própria sorte alguém que claramente precisava de uma mão para virar a página e voltar mais confiante na próxima etapa. Vou procurando ser, eu mesma, um sinal de boa sorte, uma bênção. E isso me obriga a me recompor rapidamente, dar um exemplo preciso. Foi uma emergência e as melhores qualidades de Ar precisaram entrar em ação. Então me dispersei, flutuei, fui suave, compreensiva, paciente, tranquila e eficaz. Também usei do Fogo a melhor parte: eliminei com rapidez e eficiência os entraves. E o desfecho não poderia ser mais satisfatório: da lama retirei 538 estrelas, recebi um nome, um local, três objetos de poder, ganhei xp e novas possibilidades. É novamente tempo de celebrar!

2 comentários:

Filipe disse...

Saudades, Carol! Bom saber que as coisas estão melhores agora. Beijoooo.

Sergio disse...

Legal, legal... Vê se aparece lá no nove...