terça-feira, 22 de novembro de 2022

Canção do Centauro Arqueiro

Consciência, liberdade e responsabilidade estão tão intimamente ligadas que quase chegam a ser sinônimos. Uma certamente implica na outra. E esse trio é o que aparentemente diferencia os outros seres de nós humanos. Só para nós existe a liberdade, a responsabilidade e a possibilidade de conscientemente ser ou não. Porque, ser livre significa compreender que absolutamente nada está sob o nosso controle. Além disso, a compreensão desse fato vem acompanhada de uma grande angústia: o medo da própria incapacidade e do que pode acontecer a seguir. Pois, o minuto seguinte é incerto. Então, raros entre nós ousam entender e aceitar de verdade essa palavra tão bonita: liberdade. O que se vê é a troca contínua de uma escravidão por outra. Pois, liberdade exige habilidade para decidir o tempo todo. No entanto, é muito mais cômodo transferir essa tarefa. Então, cria-se a escravidão sob diversas formas: família, casamento, escolas, estados, governos, religiões, tradições, escrituras, Academia... Legitima-se os outros para dizer o que fazer aos demais, por onde seguir. Criam-se círculos, títulos, sistemas, tradições, culturas, times, classes, bandeiras, definições diversas... Afinal, caminhar numa trilha sem pegadas, sozinho, exige grande responsabilidade e consciência. Requer uma postura que dificilmente foi ensinada, que exige se apartar da multidão e seguir como um indivíduo. Significa que a todo momento será necessário decidir, gerar a si mesmo, criar a própria alma. Ninguém mais será responsável, somente você. Porém, a questão é que a vida toda, você é ensinado a obedecer. 

Nietzsche, esse libriano que por ter gostado muito de falar e escrever acabou falando e escrevendo muita besteira no meio de tanto pensamento interessante, publicou uma das idéias mais decisivas do século retrasado: "Deus está morto e o homem está totalmente livre." Se Deus está realmente morto, então o homem está totalmente livre. Mas, o homem não tem tanto medo da morte de Deus: ele tem muito mais medo da sua liberdade. Porque, se não existe Deus, então você foi condenado a ser livre. Agora faça o que você gosta e sofra as consequências, ninguém mais será responsável, só você. Erich Fromm escreveu um livro chamado "O Medo da Liberdade". Basicamente, o livro fala que o amor é uma liberdade, o casamento é uma escravidão. Mas, é difícil encontrar uma pessoa que se apaixona e não pense imediatamente em casamento. Existe o medo e com ele essa necessidade de aprisionar. Justamente porque o amor é liberdade. O casamento é uma coisa segura onde aparentemente, não existe medo. O casamento é uma instituição morta, o amor é um evento vivo. Ele se move, ele pode mudar. O casamento nunca se move, nunca muda. Por causa disso o casamento tem uma certeza, uma idéia de segurança. O amor não tem certeza nem segurança. O amor é inseguro. A qualquer momento ele pode sumir de vista da mesma forma como apareceu: do nada. É algo sobrenatural, não tem raízes na terra. Por isso, as pessoas se casam, fincam raízes. O casamento não vai evaporar no nada. 

Toda situação, exatamente como no amor, onde há inicialmente liberdade, tende à escravidão. E quanto mais cedo melhor! Assim se pode relaxar. Por isso, toda história de amor termina em casamento. "Eles se casaram e viveram felizes para sempre." Ninguém está feliz, mas é bom terminar a história ali porque em seguida vai começar o inferno. Por isso toda história termina no momento mais bonito. Aquele exatamente anterior ao ponto em que a liberdade se torna escravidão! E isso não é apenas com o amor, é com tudo. Por isso, é mais provável que o casamento venha a ser uma coisa feia cedo ou tarde. Toda instituição tende a ser uma coisa feia porque ela é apenas um corpo morto de algo que um dia foi vivo. Mas, com uma coisa viva, a incerteza está presente. "Vivo" quer dizer que pode mover, pode mudar, pode ser diferente. Eu amo você e no próximo momento eu posso não amar. Acho que por isso gosto tanto de ter certeza que a outra pessoa saiba o que estou sentindo por ela no exato momento em que sinto. Sei que depois sentirei outra coisa e aquilo terá desaparecido. Mas, se eu disser ou mostrar, ela pode saber, pode sentir e isso tornará o momento eterno. No entanto se sou sua esposa, há a certeza de que no próximo momento eu também serei. Isso é uma instituição, uma coisa morta. Coisas mortas são permanentes, coisas vivas são momentâneas, mutáveis, estão num fluxo. Por isso, pessoas tem medo de liberdade, mas a liberdade é a única coisa que nos faz pessoas. Assim, nos auto destruímos ao destruir nossa liberdade, destruindo toda nossa possibilidade de ser. E substituímos por ter. Ter parece bom, porque ter significa exercer algum domínio, manter coisas, mesmo que estejam mortas, mesmo que seja apenas coleções de coisas completamente inúteis. Podemos continuar mantendo e acumulando, não existe um fim para isso. E quanto mais se acumula, mais seguro se sente. 

O esforço da Vontade nesta questão é crucial. Pois, qualquer coisa que se faça compulsoriamente é apenas parte do passado. O futuro depende dos atos com Vontade. Um ato muito simples feito com consciência, com Vontade, traz um certo crescimento, ainda que seja um ato comum. Se resolvemos jejuar, não será porque não temos comida. Temos comida, temos fome, portanto, podemos comê-la. Mas, jejuar é um ato voluntário, um ato consciente. Nenhum animal pode fazer isso. Um animal jejua algumas vezes, quando não existe fome. Um animal terá que jejuar quando não existir alimento. Mas, somente o homem pode jejuar quando existe ambos: a fome e o alimento. Isso é um ato voluntário. Esse jejum é um ato de sua Vontade, um ato consciente. Isso trará mais consciência e o sentido de liberdade sutil: livre do alimento, livre da fome e assim, no fundo, livre do seu corpo, livre da natureza. A liberdade cresce e a consciência cresce. Quanto mais livres, mais conscientes, quanto mais conscientes, mais livres.

Um comentário:

Filipe disse...

Sagitário é tudo de bom!