Do meu primeiro ano de vida até os seis viajei todo verão para conhecer o nordeste com os meus avós. Íamos de carro, por isso, entre as poucas coisas que haviam para passar o tempo durante o cansativo trajeto estavam as minhas fitas do Balão Mágico e Trem da Alegria. Também haviam as fitas de músicos de blues e jazz do meu avô e algumas das mais temidas fitas de samba da minha avó. Nós revezávamos e foi assim que aprendi a esperar pela minha vez, a respeitar a vez dos outros. Foi assim que começaram minhas aulas de música, com meu avô dizendo para eu identificar os instrumentos no meio da massa sonora e para responder qual instrumento estava tocando. Era divertido até. Mas a vez da minha avó era a parte mais sofrida da viagem. Nada de jogo de perguntas, nada de cantar junto, nem lições, só aqueles lamentos sofridos das letras de samba. Uma das fitas se chamava Festa no Céu, onde estavam reunidos vários representantes da velha guarda sambista e na capa haviam desenhos de suas figuras entre nuvens. Eu achava aquilo tão mórbido e tão chato, que levei anos para aprender a apreciar o que há de bom nesse estilo. E mesmo assim, o trauma nunca foi superado completamente: ainda não sou muito boa da cabeça e meu pé também não é dos melhores.
Um comentário:
"Não sou muito boa da cabeça" - Bem vinda ao time!
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