quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Véus e Portais

Não sei ao certo por onde começar, foram tantas passagens, tantos marcos de vida, que agora está tudo completamente diferente. Muito morreu, muito nasceu. O tempo dissolveu-se em neblina nos últimos meses, anos... e deixou apenas o chamado. Não quero falar dos fatos e seus espinhos, mas da rosa cheia de pétalas que brotou no meu espírito.

No equinócio de Primavera, pela manhã, dormi enquanto trocavam o meu cristalino: o olho esquerdo, cego, recebeu uma nova lente, feita por mãos humanas, e esse simples fragmento provocou a travessia por um portal. Lá encontrei outra realidade. As coisas sempre aconteceram na minha cara e eu não vi. Agora, pode-se até mesmo dizer isso literalmente. O nome que recebi nessa vida, não me foi dado à toa. Certamente, alguém muito irônico influenciou nisso aí. Mas, o caso é: tenho agora dois olhos que não concordam. O olho direito, guarda em si ainda o mundo amarelado da natureza, das tradições e do tempo. O esquerdo, moldado pelo corte da lâmina, parece vidro recém limpo, guarda um filtro arroxeado, meio ametista.

Desde então, quando olho para a montanha, o pensamento flui... Qual dos dois olhos revela a cor verdadeira do mundo? Qual delas é a realidade objetiva, fria e qual é apenas um reflexo no espelho de Maia? Ainda, seriam ambas véus que escondem a chama que não pode ser olhada diretamente? 

É inquietante... A verdade é um raio fixo ou um mosaico em movimento? Mora nas coisas, ou na alma que as contempla? Essa nova condição me fez experienciar um segredo antigo: não existe um único mundo, mas muitos. Cada olhar, cada pessoa atravessa a mesma paisagem por portas distintas. As cores são apenas sinais na superfície; atrás delas há camadas, sombras e luzes que não se deixam traduzir. E cada verdade é o espaço sagrado entre o que o olho percebe e o que o coração entende.

Sempre desconfiei que ninguém vê o mundo da mesma forma, nem mesmo fisicamente. Agora eu tenho a prova: não há uma cor única, mas haveria uma cor universal? Nessa questão, a cor é o menor dos problemas. Se até nisso não há certeza, que dirá  de todo o resto, que dirá do invisível, onde Exu e Oxalá dançam eternamente? Agora carrego duas chaves, dois olhos que não competem, mas me lembram que a verdade não é um só caminho, mas as muitas alamedas abrindo-se enquanto o Destino caminha por seu jardim. E talvez a verdadeira prova da vida seja aceitar que nunca verei a imagem inteira, apenas os fragmentos que um olho amarelo e o outro lilás, bem como a soma dos dois, conseguem captar.

Então, a isso cheguei... Iniciada pela cegueira provocada por anos de agonia em que me submeti a carregar esperanças vazias sobre planos felizes, sozinha; consagrada pela diferença entre meus próprios olhos, caminhando dentro de um templo circular, um tempo circular: dois olhos, duas chaves, um só portal de onde não enxergo uma verdade, mas muitos convites.

"Verdade lembra uma estrela
Quebrada em montão de lodo,
Cada pessoa que a busca,
Encontra parte do todo."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Casa Assombrada

Depois de crescer numa casa amaldiçoada
Por tristeza, raiva, gente magoada
Sem nenhuma das fundações bem enterradas
Com punhos fechados e bocas cerradas.

Meus monstros nunca estiveram em armários
Sequer escondiam-se, reinavam autoritários
Jamais esgueiraram-se por debaixo das camas
Habitavam a sala, a cozinha, olhos, palavras em chamas.

Vigiando pela manhã enquanto eu ia para a escola
Assustando quem vinha trazer atenção como esmola
Esperando a noite, enquanto voltava da rua
Aguardam até hoje que algo me destrua.

Como sentir qualquer vestígio de segurança
Amor, paz, ou manter a esperança
Acreditar, conseguir força e confiança
Se apenas sobrevivo desde criança?

Sempre correndo, ansiosa, atribulada
Em cada etapa, cinicamente abandonada
Com a vida inteira amaldiçoada
Depois de crescer numa casa assombrada.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Dura lex

Uma vez eu ouvi de uma das pessoas que mais importam para mim, numa situação de despedida: isso não é justo. Acho que algumas pessoas tinham mesmo que receber certas compensações do universo, por suportarem dores que ninguém devia precisar passar... Experiências pesadas demais para qualquer um. Depois delas, tudo devia ser mais suave e feliz. Naquele momento, minha vida passou pela minha cabeça... quase 33 anos... E eu só consegui concordar, com o maior sentimento de impotência: sim, não é mesmo.

E claro que se o universo dependesse de mim, eu nem saberia por onde começar, nem como e por isso, até entendo ele ser essa bagunça que aparentemente é... como se tivesse sido simplesmente largado pra lá... Naquele mesmo ano, alguns meses depois eu estaria lidando com outra situação de despedida, tão intensa, tão grande quanto, dadas as devidas proporções. E também se iniciava a época mais doida e caótica da minha vida. Duas despedidas no mesmo ano... Recomeços grandiosos... Não bastava todas as lições até ali sobre o quanto somos insignificantes diante das leis que regem essa loucura toda e sequer conhecemos.

Mas, dez anos depois... aqui estamos todos outra vez, na virada da maré. E eu só consigo pensar  que depois daqueles 22 anos de peso desnecessário, essa meta já tinha que ter sido batida, sabe? Para que mais  medo, perda, sensação de impotência, vazio, lacunas? Afinal, como acontece com as cólicas mensais, só dói, apenas isso. Serve pra nada. E isso não é justo mesmo.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Marvel Jesus

Sem Internet durante boa parte da tarde, com muitas coisas para resolver e ponderar, até café acabei tomando. Então, sem conexão com a minha equipe de trabalho, acabei lendo algumas coisas e encontrei, por acaso num livro esse parágrafo:

"Eu não fui expulsa dos mutantes, eu fui DEMITIDA. Eu cheguei no estúdio e o Arnaldo e o Sérgio me chamaram em uma sala. Ambos se sentaram na minha frente em uma mesa e eu atrás em outra cadeira. Ali, naquele momento, eles teceram um texto merda de paz e compreensão, mas na verdade era a minha retirada da banda. Eu não estava usando botina de peão de fábrica daqueles que tem ponta de ferro, mas era a mesma coisa. Os dois chefes me demitiram. Eu sou a voz de mais da metade das músicas dos Mutantes mas isso aparentemente não importava para eles. Me afetou? Muito! Saí daquele estúdio cambaleando, entrei no meu Fusca e dirigi por dois quilômetros longe dali, quando resolvi parar. Parei. Saí do carro e chorei aos montes, eu era um lixo escorrendo lágrimas. Não sabia mais o que fazer da minha vida. Achei que os mutantes eram os Mutantes por causa minha, descobri ali que eu era na verdade um produto. Foi tristeza misturada com raiva e desgosto. Esse sentimento me consumiu por meses até eu ter energia de bolar minha carreira solo."

Só quem já passou por algo assim sabe como é se sentir caindo num poço que parece não ter fundo e quando finalmente chegar lá, olhar para o céu. Ninguém devia precisar sentir isso. Especialmente depois de ter feito de tudo para ser o melhor possível, estudar para melhorar e evitar possíveis falhas, aprender coisas novas em tempo recorde, chegar o mais cedo e sair o mais tarde só para que o projeto saia, fazer todos os esforços, doar todo o tempo e energia... Tudo isso, ainda precisando lidar com mais dois empregos, fim de um relacionamento super legal, correria da pipa voada, família louca... Algo assim faz qualquer um questionar se todas as habilidades que parecíamos ter são mesmo reais. Pois, começamos a entrar numa espiral de duvidas a respeito do que sabemos de bom, de nossa utilidade, de nossa relevância, até nosso valor mesmo como pessoa, sabe? Parece que nossa presença nunca fez a menor diferença. E fica ainda pior se a isso se soma toda uma vida do avesso nos mais diversos setores, toda uma história de décadas de inseguranças e experiências que destroem qualquer vestígio de auto apreciação sob qualquer aspecto. Bom que a Rita, pelo menos nesse assunto abordado, se saiu incrivelmente bem. Numa época de tantas desconstruções sem propósito, sem proposições melhores, tanta perda de referências grandiosas e inversão de valores, precisamos desse tipo de história e desse tipo de herói. Não para acreditarmos em perfeição, sacralidade, duendes ou fadas... Nem para transformar todo e qualquer problema da vida em masmorras e dragões, mas para sabermos que existem saídas e é possível derrotá-los.

@copastudio's video Tweet

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Presentes de Aniversário

No outro dia, no meu aniversário, acabaram aparecendo pessoas muito queridas, dessas que tenho sempre comigo, das mais altas grifes e por isso mesmo, de baixa manutenção... Um dos requisitos básicos para relacionamentos profundos e reais por aqui. Da maioria eu não tinha notícias há bastante tempo, mas nem por isso deixei de amá-las, considerá-las, lembrar-me delas com carinho, rir de nossas piadas internas, falar sobre nossas aventuras, desejá-las sempre o melhor, torcer por elas... Incluindo aí o autor das Ruelas Eternas, que está fazendo esse enorme favor a todos nós de voltar a escrever por lá.  Não fazem muitas semanas quando cheguei a comentar sobre o Anonimato Diário, do mesmo autor... Deixo aqui registado inclusive o desejo de que aqueles relatos ganhem fôlego para serem retomados também!

Mas, o retorno a todos esses lugares - pessoas são lugares, mundos inteiros - num só dia, no meu aniversário, acabou resgatando sentimentos, esperanças, alegrias, gargalhadas e possibilidades antigas que andavam escondidas em mim. E talvez, nenhum dos amigos saiba disso, mas, apesar da bagunça que ainda está aqui dentro, suas presenças, suas palavras... me recuperaram motivações e esperanças adormecidas também. Agradeço demais por isso!