terça-feira, 19 de novembro de 2024

Marvel Jesus

Sem Internet durante boa parte da tarde, com muitas coisas para resolver e ponderar, até café acabei tomando. Então, sem conexão com a minha equipe de trabalho, acabei lendo algumas coisas e encontrei, por acaso num livro esse parágrafo:

"Eu não fui expulsa dos mutantes, eu fui DEMITIDA. Eu cheguei no estúdio e o Arnaldo e o Sérgio me chamaram em uma sala. Ambos se sentaram na minha frente em uma mesa e eu atrás em outra cadeira. Ali, naquele momento, eles teceram um texto merda de paz e compreensão, mas na verdade era a minha retirada da banda. Eu não estava usando botina de peão de fábrica daqueles que tem ponta de ferro, mas era a mesma coisa. Os dois chefes me demitiram. Eu sou a voz de mais da metade das músicas dos Mutantes mas isso aparentemente não importava para eles. Me afetou? Muito! Saí daquele estúdio cambaleando, entrei no meu Fusca e dirigi por dois quilômetros longe dali, quando resolvi parar. Parei. Saí do carro e chorei aos montes, eu era um lixo escorrendo lágrimas. Não sabia mais o que fazer da minha vida. Achei que os mutantes eram os Mutantes por causa minha, descobri ali que eu era na verdade um produto. Foi tristeza misturada com raiva e desgosto. Esse sentimento me consumiu por meses até eu ter energia de bolar minha carreira solo."

Só quem já passou por algo assim sabe como é se sentir caindo num poço que parece não ter fundo e quando finalmente chegar lá, olhar para o céu. Ninguém devia precisar sentir isso. Especialmente depois de ter feito de tudo para ser o melhor possível, estudar para melhorar e evitar possíveis falhas, aprender coisas novas em tempo recorde, chegar o mais cedo e sair o mais tarde só para que o projeto saia, fazer todos os esforços, doar todo o tempo e energia... Tudo isso, ainda precisando lidar com mais dois empregos, fim de um relacionamento super legal, correria da pipa voada, família louca... Algo assim faz qualquer um questionar se todas as habilidades que parecíamos ter são mesmo reais. Pois, começamos a entrar numa espiral de duvidas a respeito do que sabemos de bom, de nossa utilidade, de nossa relevância, até nosso valor mesmo como pessoa, sabe? Parece que nossa presença nunca fez a menor diferença. E fica ainda pior se a isso se soma toda uma vida do avesso nos mais diversos setores, toda uma história de décadas de inseguranças e experiências que destroem qualquer vestígio de auto apreciação sob qualquer aspecto. Bom que a Rita, pelo menos nesse assunto abordado, se saiu incrivelmente bem. Numa época de tantas desconstruções sem propósito, sem proposições melhores, tanta perda de referências grandiosas e inversão de valores, precisamos desse tipo de história e desse tipo de herói. Não para acreditarmos em perfeição, sacralidade, duendes ou fadas... Nem para transformar todo e qualquer problema da vida em masmorras e dragões, mas para sabermos que existem saídas e é possível derrotá-los.

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