domingo, 23 de outubro de 2022

Canção da Fênix


Essa é uma canção que deveria começar com um grito. Um silêncio prolongado, talvez. Ou simplesmente algo bem brusco! Nem chega a ser uma canção, pois, esta não se canta. Não tem letra. Aqui se trata de todas as experiências profundas demais para serem verbalizáveis, todos os mistérios. Erotismo, vida, morte, transcendência, renascimento... Aqui é onde tudo se esconde. Nada é claro. Nada é calmo. Crise. Sombra. Falta ao meu Ar a calma e a clareza que tanto valorizo para cantá-la. Afinal, qual a melhor forma para expressar o que acontece nas Águas profundas... durante os dias no abismo? Não se planeja esse tipo de coisa. Apenas, aceita-se. Tenho tão pouco de Água em mim que em todos os meus sonhos ela aparece e sou obcecada por corpos aquosos e transparências. Toda a metalinguagem do pensamento barroco e seus labirintos, seu movimento ascendente, sua complexidade, sua sobreposição de planos, seu drama, sua exuberância, seu espetáculo, seu exagero, seu luxo, seus contrastes bruscos, suas diagonais, sua falta de formas definidas... De certa forma, acaba sendo por esses vieses que as coisas e as pessoas me tocam de um jeito ou de outro. Nas curvas, nas dobras, na nebulosidade, na sugestão, no talvez, nas esquinas e devires, pois é aí onde se esconde o núcleo de tudo o que importa. O êxtase. E viver o êxtase é morrer. E morrer é desaparecer. "Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva na estrada." E o que está oculto me fascina. Talvez seja por isso que tantos assuntos me interessam. E por uma ironia da vida, as pessoas aquosas tendem a me buscar... os caranguejos, os escorpiões e os peixes... mas eu nunca lido muito facilmente com nenhuma delas. Por isso é tão rico quando me encontram, por isso é tão exaustivo quando as enfrento. São sempre amizades difíceis, insistentes, mas uma vez estabelecidas, são as mais verdadeiras e sólidas. Seja como for, ainda assim, sei bem do que se trata essa canção. São sagradas, reservadas apenas para os ritos mágicos, sazonais ou fúnebres, as cerimônias e momentos decisivos, transformações e morte. Quando algo muito extraordinário acontece. Aqueles dias de inundação, vendaval, terremoto e incêndio, êxtase e cinzas que precedem o bater suave das asas do pássaro renascido.