Quanto mais penso, menos faço, menos quero e menos sou.
Tenho incontáveis personagens, cada um com sua roupa, seus sapatos, sua maquiagem, seus cabelos, suas palavras e seus trejeitos próprios. Fujo. Dou a volta ao mundo. Procuro por quem está atrás de todo esse figurino. Por quem está puxando todas as cordinhas. E quando penso que encontrei a titereira, que já estou bem longe de casa, de todos os meus problemas, eles assobiam e acenam, vêm passear ao meu lado, puxam um papo. Eu digo que estão certos, ou que estão errados. Dou conselhos. Ouço. Planejo quando, onde e para quê. Julgo, condeno e absolvo tudo, cada ação, cada fato. E sempre procuro outra coisa. Continuo em frente. Mas, é sempre andando em frente que não se chega muito longe. Encontrar é uma questão de descuido. Então, de repente, canso, largo pra lá ou tropeço e apenas percebo. Apenas observo. Paro com o papo furado, paro de passear com os problemas inexistentes e noto que estou dentro de casa e eu sou a artista. Deixo de dar voltas. De fugir. Noto que não tenho trejeitos, nem palavras, nem cabelos, maquiagem, sapatos, ou roupas. Tudo pertence a incontáveis personagens que meus pensamentos escondem para eles mesmos brincarem de procurar. E quando a brincadeira vai cansando, penso cada vez menos.
E quanto menos penso, mais faço, mais quero e mais sou.