Há menos de um ano, as noites aqui em casa têm sido diferentes. São noites que me trazem a mesma sensação das manhãs, quando tudo a respeito daquele dia ainda é apenas possibilidade. Acendo incenso, da mesma forma que faço antes do café da manhã. Cuido das plantas, do Mambo... Quando não está tão frio pra um chá, tomo mate gelado, suco, vinho, wisky... Curto o silêncio, toco algum instrumento ou só ouço música. Escrevo, vou finalizando alguma aula, alguma ilustração... Assisto algo interessante, uma entrevista, um filme, um vídeo... Estudo, leio, seguindo na missão de ler TODOS os livros da casa por inteiro. Jogo videogame. Converso com amigos, namoro, saio para algum lugar... Mas na maioria das noites não procuro companhia. E fico em silêncio aqui, do mesmo jeito que faço numa manhã ideal. Mesmo com toda a capacidade que o mundo tem de produzir problemas, aqui eu sei que posso simplesmente me silenciar.
Há menos de um ano tenho algo que demorei 40 anos para conseguir: tempo. Descobri que dessa forma, com menos de tudo, o virtuosismo das habilidades ou da originalidade, algo que nunca busquei, acaba sendo genuíno, pois as coisas são o que são e há imensa beleza nisso. Não sei se pelo teor das experiências, se pela forma de apreender as lições, se pelo passar dos anos... o verdadeiro reconhecimento do próprio valor tem sido fundamental para jamais, apesar de tanto estudo, tantos interesses e dedicação a tantas atividades, deixar que a comunicação sem afetação em qualquer das linguagens que uso, especialmente através das palavras simples, seja perdida. Porque, ao menos para mim, todo o meu silêncio e contemplação seriam inúteis sem a capacidade de comunicar algo de relevante e para isso é fundamental a simplicidade. Mas, veja bem, capacidade é diferente de necessidade. Continuo não tendo tempo para explicar, mostrar, ou convencer quem quer que seja, sobre o que quer que seja fora da sala de aula ou das relações profissionais. Muito menos com ares de mestre, doutora, phd ou astronauta. E tenho menos tempo ainda para quem só ocupa a cabeça com a contradição dos outros, as incoerências do mundo, os assuntos chatos, pesados, sérios e passa o dia assumindo uma postura, se posicionando, provando pontos, profetizando, pregando, discutindo com o vento a troco de nada, sem relaxar nem mesmo quando encontra amigos...
Não tenho uma visão romântica da vida. Dou utilidade prática até para o misticismo. Porque realmente sei que os grandes momentos ocorrem durante as pequenas ações cotidianas, durante as pequenas gentilezas e gestos de amor. E não, através de discussões inflamadas, falação, disputas... No fim, esse comportamento só serve para se autoafirmar, para deixar claro o quanto se está cheio de si e se sentir superior aos outros. E a gente só precisa do que não tem. Não me perco pensando em como tudo deveria ser, em coisas impossíveis no momento, no que eu acredito ser o certo, achando que a realidade, "o real", irá mudar se eu encher bastante a paciência com um monólogo egocêntrico baseado numa crença de que o outro só fala merda e eu sim é que sei das coisas.
Há menos de um ano tenho finalmente paz dentro da cabeça. Neste momento isso é uma alegria que transborda e precisa ser partilhada. É um excelente momento, afinal, além disso, o mundo tem estado mais louco que nunca. E nem falo da gasolina, da inflação, das tragédias ou da III Guerra. Milagres têm acontecido e velhos pequenos sonhos têm se realizado por aqui também. Sejamos gratos: não apenas emendamos o Carnaval com o Natal num ano, como agora teremos dois carnavais!
Quando deixo pra lá é de coração, sabe? E isso só é possível agora graças àquele trabalho de destralhamento da vida que segue a todo vapor.