Em si mesma, a vulnerabilidade oculta uma força de ordem desconhecida. Sedutora, intrigante, provocativa, paralisante e até ameaçadora. Isso vem à mente toda vez que me deparo com a desvantagem, com o fundo do poço e a sensação de impotência. Então, quando vejo aquele amontoado fanático de defensores de minorias, de párias e religiosos se digladiando num desespero irritante e ao mesmo tempo comovente, das formas mais precárias e imbecis, reflito bastante e converto para minhas próprias dificuldades.
Poucas vezes vejo o poder sendo de fato usado. Fanáticos e desesperados não são lá muito conscientes e suas fragilidades no lugar de torná-los fortes, são canais para a expressão de suas piores fraquezas. Sua falta de estratégia e clareza os tira do ringue a nocaute no primeiro golpe.
Poucas vezes vejo o poder sendo de fato usado. Fanáticos e desesperados não são lá muito conscientes e suas fragilidades no lugar de torná-los fortes, são canais para a expressão de suas piores fraquezas. Sua falta de estratégia e clareza os tira do ringue a nocaute no primeiro golpe.
As coisas frágeis, além das difíceis e das simples, são poderosas porque são fascinantes. Sobrevivem por sua força de vida e por serem subestimadas. Para quem observa em silêncio é um deleite. E entendi isso ainda criança. Primeiro quando precisei lidar com meus problemas sozinha, pois nenhuma das pessoas que supostamente deveriam me proteger e nutrir foi capaz de ouvir meus apelos, nem perceber os sinais do que ocorria. E ocorriam coisas muito feias. Segundo quando constatei que apesar de não fazer nenhuma questão dessa loucura toda aqui, morrer, em mais de uma ocasião, não foi o meu forte.
Tenho vocação para o caos. Tenho inclinação para a vida. A mudança me empolga. Renascer das cinzas é a única possibilidade. Não existe lado de fora.
E acredito no poder da ação. Atitudes são mais fortes que argumentos. Algo que meu pai me deixou de mais valor "Contra fatos não há argumentos.", "Se você fez, está feito. Se você fez e se envergonha, não faça mais. É suficiente.". "Não adianta pedir desculpas por educação, se você voltará no erro. Se você só fizer diferente porque é obrigada.". "Toda atitude gera consequências. Você deve conhecer as consequências antes de agir.". "Você irá mentir para os outros quando considerar que deve. Mas nunca deve acreditar nessas mentiras. Deve saber separar as coisas.". "O que acontece não é o que dizem. O que acontece é o que acontece. Cabe a você saber observar com sua própria inteligência e consciência."
Algumas vezes vejo a força da fragilidade tão explicitamente que não entendo como podem ativistas terem um comportamento tão besta. Continuarem com ofensas, hostilizações e a pregação ineficaz. Raiva é medo. Insistência é medo. Perturbação é medo. Depressão é medo. E o medo vem da falta de controle. É mais fácil aceitar. E mais forte também. Existe uma sabedoria na decisão do momento certo para abrir a boca, no tom que se escolhe, na forma de comunicar. Ouso dizer que de todas as formas que conheço, as palavras são as piores.
Vou deixar aqui algumas das demonstrações de poder mais bonitas e eficazes que estou lembrando no momento. Se você que me lê lembrar de outras, e quiser me enviar, ficarei feliz em acrescentar ao texto.
Pintura de Norman Rockwell retratando Ruby Bridges sendo escoltada até a escola estreante em receber estudantes negros.
Fotografia de Jeff Widener retratando a cena em que um homem invade a pista e procura impedir o avanço dos tanques na Praça da Paz Celestial em Beijin.
Escultura de Kristen Visbal retratando uma menina enfrentando o já tradicional touro da Wall Street, ambiente majoritariamente masculino.
História de vida de Beverly Watkins, hoje com 77 anos e na ativa com sua guitarra há 60 anos.
“Eu gosto de histórias onde as mulheres salvam a si mesmas.”
Frase de Neil Gaiman refletindo sobre a quantidade de heroínas, vilãs e papéis importantes exercidos por mulheres em suas histórias.
Pra fechar, só gostaria de deixar um trecho do prefácio de um livro de contos também de Neil Gaiman, que trata mais fundo e mais poeticamente este assunto do que fui capaz assim apressadamente por aqui. No mais, ninguém vai resolver o problema da violência de qualquer ordem impedindo os outros de falar seja lá o que for, com hostilizações e tudo mais. Nem fechando ruas em horários de maior trânsito. Muito menos se vestindo de branco e escrevendo "paz" na testa em manifestações na Zona Sul contra a violência.
“Acho que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, do que uma vida gasta evitando a dívida moral. (…) Então, me perguntei a que me referia com ‘coisas frágeis’. Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também.
Enquanto escrevo isso, me ocorre que a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é o modo como elas são na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármores capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano. Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, não falhando quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar.
Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação. Ou então são palavras no ar, compostas de sonhos e ideias - abstratas, invisíveis, sumindo no momento em que são pronunciadas -, e o que poderia ser mais frágil que isso? Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, perduram mais do que todas as pessoas que as contaram, e algumas perduram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas”


