Podia ter feito coisas hoje. Podia ter almoçado... Mas nunca tenho ânimo para comer quando estou sozinha. Fico tão cheia das minhas idéias! Cantei num bar ontem, voltei tarde. Ele saiu cedo, de madrugada. Acordei e arrumei a bagunça que ele deixa por onde passa... A bagunça me faz companhia, mas só até a parte em que a agonia permite. Queria ter feito tantas coisas... chamado um amigo para conversar... mas o sol já vai alongando as sombras lá fora.
"Bar de rock". O fantasma de Bukowski deve puxar o pé do dono daquele lugar todas as noites!
É surpreendente como podemos ser tão irresponsáveis, maldosos, inconvenientes, irritadiços, frios ou desinteressados... tomamos conclusões tão rápido, tão narcísicas, condenamos com tanta facilidade e conveniência. Mas só quando existe uma distância segura, quando não estamos envolvidos... E é prudente não se aproximar demais. Não é feliz, mas é prudente.
A gente nunca tem poder sobre a imagem que os outros constroem na cabeça deles. Sobre nós ou qualquer outra coisa. E nem deveríamos nos interessar por esse tipo de inquietação.
Dizem que ninguém vive sozinho... Sempre achei isso meio estranho, porque é justamente essa a maior das angústias humanas, estar sozinho dentro da própria existência... O que seria do erotismo, por exemplo, sem a solidão, o profundo e verdadeiro vazio em que cada um vive? O que seriam das produções artísticas? As melhores obras são com certeza produto de um nada interno sem fim... O que seriam dos heróis sem as guerras?
A roda não para de girar.
Um dia desses estava ouvindo uma monja respondendo a todas as reclamações que alguém fazia para ela com um "é você." Não importa o que contavam, ela dizia "é você". Acho que eu dava na cara dela se fosse comigo. Ela tem total razão.
Alguém me disse uma vez quando eu era criança "afaste-se das pessoas". Pensando agora, talvez seja por isso que nessa época eu tinha uma teoria: as pessoas são monstros fantasiados. Eu realmente acreditava nisso. Nem sei quando parei. Será que parei? De fato sinto um profundo desconforto quando tem gente demais. E não confio em absolutamente ninguém.
Na verdade, não seria uma boa conversa. Nem é um bom dia para almoçar ou fazer coisas. Inclusive, foi péssima a idéia de arrumar a bagunça.
Dá um desânimo quando desperto e me vejo apenas respondendo ao que aparece primeiro. Mas, talvez o vazio precise de espaço também.
Acho que não era nada disso que eu queria dizer...