sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Weihnachtsgeist

Minha irmã completa hoje a idade mais angustiante de todas. A última na casa dos 20, antes de fazer 30 anos. Mas, por ser minha irmã dividimos o mesmo carma da infantilização familiar. Só que com ela, talvez isso tenha um impacto muito maior pelo convívio diário, além de uma condição física diferente da maioria das pessoas. 

Bom, isso quer dizer que mais um ano no calendário comercial está no fim. Ou seja, cadê aquele saco que não tenho? Expectativas demais, hipocrisia demais, calor demais, desperdício demais, contas demais, consumo demais, comida demais, gente demais... Não fossem as cerejas, os chocotones e o pudim, sempre presentes nas reuniõezinhas festejando sei lá o que, eu sequer teria pena de arranjar um acampamento de verão em algum lugar bonito e isolado onde fosse inverno e só voltaria no início do outono. 

Mentira. Voltaria nada.

Geralmente não faço resoluções de fim de ano. Para mim o ano começa no dia do meu aniversário. Mas, como não posso compartilhar o meu calendário umbiguiano com todos os demais, e já que vivemos em sociedade, esse ano de 2017 virá com alguns post its sim. Alguns têm relação direta com metas de carreira, o estúdio, dinheiro... Mas o mais importante está relacionado a encontrar outro lugar para morar. Bem longe. De preferência onde nevar.

Estou um pouco cansada de sentir calor  e sentir uma falta de respeito e desconsideração generalizada por quem está aqui há tempo demais para ser inocente, também. Não sei o que acontece. Tenho o hábito de não me meter com a vida dos outros, tratar cordialmente, apesar de saber muito bem que são todos fdps até que provem o contrário. Mas, se eu contar a quantidade de cortes e bloqueios só neste ano... temos com certeza um recorde aqui. E se soubessem o prazer que sinto em abrir espaço para o novo... em construir... me desfazer do que já não cabe mais... Talvez alguns estivessem um pouco menos empenhados em "ajudar". 

Sabe aquela ajuda ao Haiti? Aos países africanos? Ao Oriente Médio? Sabe esses ideais de acabar com a pobreza do mundo, com a fome? Aquele ombro amigo em seus períodos de baixa? O Espírito de Natal? Então, não. Não existe isso. O que existe é gente interessada em expandir seus domínios. Ajuda, não. Preocupação com o bem estar do outro, não. Amizade, amor, consciência global, noção de que somos todos uma irmandade, não viaja. 

Vivemos juntos, morremos sozinhos. É verdade. Mas, não me venham com essa de que não é cada um por si, porque de infantilização já tô farta. E pensando bem, lá também terá muito mais cerejas, chocotones e pudins.

domingo, 27 de novembro de 2016

Carlos... Charles...

Podia ter feito coisas hoje. Podia ter almoçado... Mas nunca tenho ânimo para comer quando estou sozinha. Fico tão cheia das minhas idéias! Cantei num bar ontem, voltei tarde. Ele saiu cedo, de madrugada. Acordei e arrumei a bagunça que ele deixa por onde passa... A bagunça me faz companhia, mas só até a parte em que a agonia permite. Queria ter feito tantas coisas... chamado um amigo para conversar... mas o sol já vai alongando as sombras lá fora. 

"Bar de rock". O fantasma de Bukowski deve puxar o pé do dono daquele lugar todas as noites!

É surpreendente como podemos ser tão irresponsáveis, maldosos, inconvenientes, irritadiços, frios ou desinteressados... tomamos conclusões tão rápido, tão narcísicas, condenamos com tanta facilidade e conveniência. Mas só quando existe uma distância segura, quando não estamos envolvidos... E é prudente não se aproximar demais. Não é feliz, mas é prudente.

A gente nunca tem poder sobre a imagem que os outros constroem na cabeça deles. Sobre nós ou qualquer outra coisa. E nem deveríamos nos interessar por esse tipo de inquietação. 

Dizem que ninguém vive sozinho... Sempre achei isso meio estranho, porque é justamente essa a maior das angústias humanas, estar sozinho dentro da própria existência... O que seria do erotismo, por exemplo, sem a solidão, o profundo e verdadeiro vazio em que cada um vive? O que seriam das produções artísticas? As melhores obras são com certeza produto de um nada interno sem fim...  O que seriam dos heróis sem as guerras?

A roda não para de girar.

Um dia desses estava ouvindo uma monja respondendo a todas as reclamações que alguém fazia para ela com um "é você." Não importa o que contavam, ela dizia "é você". Acho que eu dava na cara dela se fosse comigo. Ela tem total razão.

Alguém me disse uma vez quando eu era criança "afaste-se das pessoas". Pensando agora, talvez seja por isso que nessa época eu tinha uma teoria: as pessoas são monstros fantasiados. Eu realmente acreditava nisso. Nem sei quando parei. Será que parei? De fato sinto um profundo desconforto quando tem gente demais. E não confio em absolutamente ninguém.

Na verdade, não seria uma boa conversa. Nem é um bom dia para almoçar ou fazer coisas. Inclusive, foi péssima a idéia de arrumar a bagunça. 

Dá um desânimo quando desperto e me vejo apenas respondendo ao que aparece primeiro. Mas, talvez o vazio precise de espaço também.

Acho que não era nada disso que eu queria dizer...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Black Flame

Até o dia 22 deste mês preciso escrever uma carta. Eu inventei esse prazo. E resolvi por conta própria que escreverei. Coisa minha. O fato de ser o dia do meu aniversário de 35 anos não é mera coincidência. 

Preciso terminar de ler um livro antes. Mas, já está decidido. 

Pode abaixar as sobrancelhas. Só demoro a decidir, não significa que não tenha aptidão para a coisa. Há de se convir que decisões podem ser coisas muito sérias. E o costumeiro ritual que consiste em analisar cuidadosamente todas as variáveis e diminuir a margem de erro é importante. Então, às vezes dura anos. Mas, tá aí a prova, tomo decisões sim. 

No caso as dificuldades são: 

:: Como escrever para convencer alguém de que você não se importa em convencer as pessoas?
:: O que escrever numa carta cujo objetivo é receber autorização para ser avaliado por até dois anos e, então ter a possibilidade de participar de um grupo que é contra a concepção de que devemos sentir a necessidade de fazer parte de grupos?
:: Qual dos eventos importantes da minha vida posso eleger como a justificativa que me levou ao ponto de escrever esta carta? 
:: O que poderei dizer para conseguir adesão num grupo que consta de menos de 500 pessoas no mundo todo e que ainda hoje menos da metade dos interessados consegue ingressar?
:: De quanto será o limite de perguntas que poderei fazer nesta carta para alguém que dá especial valor às perguntas, sem saturá-lo?
:: Como manter a naturalidade e não se intimidar diante de um Phd em Ciência Política, ex-oficial de inteligência do exército especializado em guerra psicológica, que escreveu um livro no período em que serviu na guerra do Vietnam, e idealizador do grupo? Mas, ao mesmo tempo, demostrar a autoconfiança, característica essencial aos adeptos, e o estranho ímpeto que me levam a crer que devo escrever essa carta?
:: Como se distinguir de um mero curioso através de simples palavras?
:: Como não se preocupar com o que não depende exclusivamente de você, quando as palavras são perfeitas para não comunicar exatamente o que precisamos?

É... Esquece o que disse sobre decisões...

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Castelo de Cartas

Ah, e só para não deixar passar...

Mais uma vez aconteceu. Pedra mole em vento duro, sinal verde piscante, pedidos de desculpa, poesia, demonstrações eloquentes e apaixonadas de afeto, braços abertos gritando para encorajar o salto, etc, etc, etc... na mínima menção de pézinho tocando o chão coberto de ovos, surgindo daquela porta que abre uma vez a cada vida... voltamos à estaca zero. Vai lá que já deu a tua hora. O lema continua o mesmo: nunca será. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016